Cadê Teresa?

Esta e outras questões filosóficas que a música pop(ular) nos impõe

Nome:
Local: Rio de Janeiro, RJ, Brazil

13.7.06

Me leva amooooooooooooor!!!!!

Tava ouvindo o "Maria Bethânia", de 1969, nesta quarta - os discos da Bethânia estão sendo relançados, num projeto do pesquisador Rodrigo Faour. Ia saboreando os arranjos corajosos e elegantes, a voz de Betha mais áspera que a de hoje, o passeio entre macumba nervosa e o bolerão enfumaçado - vou escrever mais deste disco qualquer dia - até que me deparei com "Andança".

Hoje essa canção é quase uma piada, sinônimo de chatice do corinho coletivo, zumbis da MPB de expressão abobalhada cantando num "barzinho" (esse "inho" transforma o local num gênero, "música de barzinho", essas coisas). O parceiro de Metroblog Nuno Virgílio descreveria bem a cena angustiante de estar num desses "barzinhos" e ouvir "Andança".

Mas a música tem sua graça. Sempre soube disso. Confesso, porém, que tinha esquecido.

Pois Bethânia me lembrou que a música tem sua graça. Mais que isso. Me mostrou graças que não tinha visto. Sua interpretação me tirou do automático, me fez ouvir uma nova e mesma canção. Ela falando "Meu namorado é rei" com aquele sorriso dela é como se criasse outro verso. Ou o "Me leva amooooor". Essa sílaba prolongada não tem nada da banalidade do corinho. Soa como um grito convicto de quem ordena e suplica, ora bolas, para que seu amor a leve. Tem também o dengo dos "me leva amor" que ela canta no final - essa parte me fez pensar no maravilhoso disco de Vinicius que ela gravou.

Mas o que mais chamou minha atenção foi o "Por onde for quero ser teu par". Tem mistério não. Nada de feitiçaria, só tecnologia. Ou melhor, matemática - no caso, a divisão das sílabas em tempos. Prolongando algumas, encurtando outras, uma ênfase aqui, outra ali, Bethânia fez umas sinuosidades no verso que todo mundo canta quadradão.

Nunca imaginei que fosse fazer isso, mas tô eu aqui indicando "Andança". Virou uma das minhas favoritas? Nem de longe. Mas a relação com música popular é feita dessas miudezas.

5.7.06

Far away, so close

Entre hoje e a última vez que postei aqui, estive em Berlim. Não, não fui à Copa. Voltei cinco dias antes do jogo de abertura, depois de ter passado uma semana lá.

Na curta temporada, entre momentos de trabalho corrido e de turismo descarado, ouvi música. Não do meu iPod - que eu não tenho. Ou de CDs que eu teria levado se tivesse onde ouvi-los. Ouvi música que rolava por lá. Ou pelo menos o pouco que consegui - o guia cultural da cidade é mais grosso que qualquer revista semanal do Brasil.

Minha programação incluiu shows de Gilberto Gil e Elvis Costello. Fui a uma festa de funk carioca, uma rock e uma de música russa (Russen Disko). Comi ao som de música indiana num restaurante indiano e de música vietnamita num restaurante vietnamita.

Também fiquei congelando na entrada de um show do Yeah Yeah Yeahs, esperando um cambista que passasse do meu lado e dissesse "Ingresso sobrando eu compro" ou simplesmente "ingresso". Mas os cambistas em Berlim são bem mais sutis, trabalham pela internet, resolvem tudo antes do show - eficiência germânica, enfim. Não cheguei a concretizar uma experiência musical naquela noite e essa história, na verdade, não interessa aqui.

Ao que interessa:

Foi bom ouvir Gilberto Gil cantando "Imagine" para um público de alemães e brasileiros, em ritmo de samba "eletracústico". Todos sabemos que "Imagine" não pode ser levado a sério hoje, se é que um dia pôde. Mas houve uma época em que aquele apelo ao fim das fronteiras soava mais pertinente que agora, quando a integração é uma realidade tocada por "mercados comuns". De qualquer forma, a integração de outra ordem proposta por Lennon se realizava ali, naquele microcosmo, de alguma maneira. Sonho só. Mas, como todo sonho, é bem real enquanto se sonha. Como disse, foi bom.

A experiência do show de Costello foi louca. Eu tinha virado a noite anterior, batendo uma matéria, e não consegui dormir ao longo do dia. Assisti ao show entre a insuportável vontade de dormir e o estado de enlevo e relaxamento total, que permitia que eu quase me diluísse na música. Lembro de pouca coisa, mas a voz rouca do cara acompanhada do piano exato, sem firulas, de Allen Toussaint (voz e piano de gente que viveu) ficou gravada na minha mente como sensação, grudada às imagens que via quando abria os olhos - as cortinas vermelhas e os belos lustres no alto do auditório chique da Universal onde rolou o show. Tudo trançado no mesmo delírio.

A festa funk era para a colônia brasileira, com alguns alemães. A banda que tocou era bem sarapa, com covers dos sucessos do batidão dos anos 90 para cá. Engraçado sacar que - mais que a explosão criativa da periferia, mais que a música eletrônica brasileira por excelência - o funk virou símbolo de identidade nacional. Brasileiro com saudade do Brasil quer ouvir funk. Num futuro breve, toda a iconografia clichê nacional vai ser totalmente alterada por conta disso - o processo já começou. Amanhã as passistas emplumadas serão substituídas pelas cachorras de shortinhos nas imagens que fazem os turistas babarem. No lugar do expressionismo "Orfeu negro" da Marquês de Sapucaí, o expressionismo "Cidade de Deus" do baile funk. Isso não é um lamento nem uma comemoração. É uma constatação, apenas.

Assim como no show de Costello, minhas lembranças da Russen Disko são vermelhas. Paredes vermelhas, luz vermelha, rostos vermelhos, tons avermelhados nos desenhos que passavam nas TVs da pista de dança. Alegria em ska, punk, fanfarras do leste europeu. Como o funk carioca, som de festa. Diferente de tudo, mas de apelo dançante facilmente reconhecível por qualquer um que já ouviu música pop produzida de "Rock around the clock" para cá.

A festa rock era bandas britânicas e similares. A universal e quase sempre saudável ânsia pelo novo. O mesmo clima das festas rock daqui, de espaço apertado, aura submundo e hype no ar. Legal o lounge a céu aberto - um ar condicionado natural na noite da primavera berlinense.

Nos restaurantes, a música ambiente era mais um tempero que música em si. No indiano, sentia que ouvia a música popular contemporânea dos caras, tipo um Latino, uma Ivete Sangalo. Algo genuíno, enfim. No vietnamita, estava na cara que era um lance de dar um clima vietnamita, era um som tradicionalíssimo. Mas essas pequenas experiências gastronômico-musicais reforçavam o cosmopolitismo daquela cidade.

Sei lá como é Berlim - alguém conhece uma cidade numa semana? Mas se me perguntarem, direi que a cidade é as popozuda, é ska russo tocado por fanfarra, é r&b chique, é underground hype, tudo living life in peace.

20.3.06

Do firmamento ao chão

Foi na Rua Getúlio, fronteira de Méier com Todos Os Santos, neste domingo. O mendigo batia uma garrafa pet no chão e berrava uma melodia conhecida. A letra vinha num esperanto bêbado, mas foneticamente lembrava a original. Nuns três segundos reconheci a canção: "Tempos modernos", clássico de Lulu Santos.

Mais três segundos, me dei conta: que que era aquilo? Deboche? Esperança? Os dois?

Independentemente das intenções do mendigo, era a cultura pop manifestando seu profundo cinismo. Quando quer, ela sabe.

Segue a letra (a do Lulu, claro. A do mendigo não entendi e nunca devo entender):

Eu vejo a vida melhor no futuro
Eu vejo isso por cima de um muro
De hipocrisia
Que insiste em nos rodear
Eu vejo a vida mais clara e farta
Repleta de toda satisfação
Que se tem direito
Do firmamento ao chão
Eu quero crer no amor numa boa
Que isto valha pra qualquer pessoa
Que realizar
A força que tem uma paixão
Eu vejo um novo começo de era
De gente fina, elegante e sincera
Com habilidade
Pra dizer mais sim do que não
Hoje o tempo voa amor
Escorre pelas mãos
Mesmo sem se sentir
E não há tempo que volte, amor
Vamos viver tudo que há pra viver
Vamos nos permitir

23.1.06

Meus tesouros de Augusto Malta

Meus CDs ficam num quarto lá em casa, empilhados (isso mesmo) em ordem alfabética. Mas na sala, perto do som, tem uma caixinha de madeira, ilustrada com umas fotos do Rio Antigo, que guarda os discos que tenho ouvido (ou quero ouvir) com mais freqüência. Esta segunda, quando saí de casa, tava assim:

"Memorável samba", Marcos Sacramento

Sambas antigos sem cara de samba antigo. Sacramento canta como quem viveu, não como quem entoa hino. Os arranjos são contemporâneos e o repertório se afasta das obviedades do "samba de raiz". Destaco "Mulato bamba", maliciosa na medida certa na voz do cantor. A genial "Fez bobagem" ("Quando eu penso que outra mulher/ Requebrou pro meu moreno ver" é maravilhoso) me decepciona um pouco, mais pelo arranjo que pela interpretação. Mas o balanço é positivo demais.

"Música para beber e brigar", Matanza

São melodias pop de cantar junto na segunda audição e tesão hardcore nos arranjos, combinando perfeitamente com as letras divertidíssimas que embarcam integralmente no universo viril do Velho Oeste. Jimmy London consegue imprimir sinceridade em versos como "Taberneira, traga o gim/ Tem uma mulher ai/ Que não quer mais saber de mim" ou "Maldito hippie sujo/ Quero que vá embora/ Saia já daqui" ou o primor "O último bar quando fecha de manhã/ Só me lembra que eu não tenho aonde ir". Os brutos também poemam.

"Original Olinda Style", Eddie

Tudo me atrai nesse disco. Tem a dicção de Trummer encaixando em suas melodias meio faladas na sua guitarra totalmente original - um groove que acho que tem a ver com frevo em algum ponto de sua árvore genealógica. Destaco "É assim que ela é/ Metade futebol, metade mulher", que une as duas metades numa letra que remete à alma da narração de um jogo. Ou o samba-bebum "Me dê uma cachaça". Disco clássico.

"Piratão", Quinto Andar

Meio cru demais nas bases, meio marrento demais na postura, meio ingênuo demais em suas críticas político-sociais... Mas tem uma verdade ali, né posado não. Na maior parte do tempo, me divirto com o CD. Crônica de uma certa galera de classe média baixa do início deste século 21. Recomendo, mas tem que estar de bom humor. Paula acha chato paca (desta lista, é o único que só escuto quando ela não está em casa).

"Traz a pessoa amada em 3 dias", Canastra

Pop com inteligência e humor de primeira (não por acaso, "pop", "inteligência" e "humor" são três palavras que uso demais por aqui). Apesar de ao vivo o Canastra se mostrar com mais intensidade, o disco é maravilhoso. Nada de cinismo que se faz passar por esperteza: a ordem é saber olhar as merdas da vida do melhor ângulo - da mulher que te largou até a auto-estima baixíssima que nos abate vez por outra. Mas sem ingenuidade: "Se você hoje descobriu que é um fracassado, sorria/Você será um faixa preta na arte de apanhar calado". Que tal?

"Minha lôa", Naná Vasconcelos

Tem um jeitão ancestral, meio mágico, das coisas do Naná Vasconcelos. Mas ao mesmo tempo é moderno demais, não precisa estar com espírito "Tenda Raízes" para curtir. Não precisa embarcar na transcendência "séria". Mesmo porque Naná dá um ar de brincadeira ao disco, misturando afoxé, samba, eletrônica, sem muito discurso amarrando conceitos. O que me fascina mesmo no CD são os caminhos melódicos, de sangue africano, com destaque para "Gorée".

"Two great experiences", Lonnie Youngblood featuring Jimi Hendrix

Domingo à noite, pouco antes de sair, ainda tentando abandonar a preguiça, peguei esse CD, pus para ouvir e caiu bem demais. Nas gravações blues/soul da primeira metade dos anos 60, aparece Hendrix, ao lado do saxofonista, desenvolvendo a técnica - ou melhor, parte dela, a parte mais groovy e melancólica - que explodiria na obra-prima "Are you experienced?". Quero ouvir mais, mas já posso afirmar que é - como diria o César usando um termo das Ciências Sociais - papa fina.

"You've come a long way, baby", Fatboy Slim

Seu convite à dança, irresistível, é da mesma ordem daquele feito por Bill Halley, Little Richard e Chuck Berry. Buscando na etimologia do termo, portanto, esse mergulho na eletrônica é mais "rock'n roll" que muita coisa que se dizia como tal em 98, quando ele chegou às lojas. Loops melódicos que envolvem, algumas graça de harmonia nos encontros de guitarras meio tortas e um ritmo que só sei explicar como orgânico, pela maneira com que afeta fisicamente o corpo. Esse vai demorar a sair dos braços de Augusto Malta.

20.1.06

Enfim, '4'

Ainda não tinha escrito nada sobre o “4”, mais recente CD do Los Hermanos. Ouvi o disco (algumas vezes com atenção outras como fundo musical), li coisas muito legais (destaco a entrevista de Bruno Natal com o produtor Kassin), mas ele não tinha me movido a pôr algo no papel (no HD, no servidor). Pelo menos até sexta-feira passada, quando fui na estréia da temporada dos caras no Canecão. Então, décadas depois do restante da humanidade, aí vai.

Minha impressão, formada ao longo do show, foi a de que em muitos momentos de sua atual fase “4” o Los Hermanos abriu mão do pop inteligente e fresco (de frescor, não de frescura) de seus outros trabalhos para ser... Dori Caymmi. Ou Wagner Tiso. Harmonias ousadas, andamentos lentos, canções que não parecem canções. Tão ou mais inteligente e provocador quanto sempre foi. Mas a inteligência pop que eles, se ainda não deixaram, estão deixando para trás (exemplo: não me lembro, no repertório do show, de nenhuma música do sensacional disco de estréia do grupo, o mais escancaradamente pop de todos) é de outra ordem. Mais rara, acho.

Deixar claro: não sou uma viúva do Los Hermanos dos “good old times”. Confesso que, neste aqui-agora, tendo a preferir a fase pop, que trazia sob a superfície de comunicação direta uma elaboração profunda. Mas essa fase está lá, registrada em discos empilhados aqui em casa para a hora em que eu quiser ouvir. Não posso nem quero exigir nada sobre os caminhos que o Los Hermanos escolhe para si. A pior coisa que pode acontecer a uma banda é se tornar refém de seus fãs ou apreciadores (uma espécie de “fã” um pouco mais racional). E desse mal o Los Hermanos definitivamente não sofre.

Outra: se posso preferir tudo, para que me agarrar a A ou B? Em outras palavras: a fase “4” tem outros gostos que curto saborear. Foi ótimo ver Marcelo Camelo tocando suas novas músicas com aquela combinação de mão direita de guitarra e mão esquerda de violão – cada hemisfério cerebral jogando para um lado da sensibilidade do sujeito. Ou embarcar nos detalhes de ourivesaria das harmonias de “Dois barcos” ou “Pois é”. Ou tentar entender a existência de “Horizonte distante” – espero que você saiba o que estou querendo dizer. E ver Barba (desde sempre a âncora da banda, o pé no chão, a segurança) mergulhando em outras ondas, mais climático mas sem abandonar a precisão rítmica. E Amarante - cara que, gostem ou não, inegavelmente nasceu para o que faz – cada vez mais refinado como compositor.

Enfim, o clima deste texto não é “morena, tem pena, ouve o meu lamento”. Está mais para “Morena, tá tudo bem”.

***

Pela primeira vez não saí de um show do Los Hermanos “recarregado”, com o espírito completamente leve. Agora vê como é esse negócio de show... É uma experiência única para cada pessoa, cada ponto de vista. Foi o primeiro show deles que não assisti no olho do furacão, nos lugares mais baratos, enfim, no meio dos fãs. Isso faz diferença. Não acho que o meu Balcão Nobre foi determinante para minha percepção do show, mas entra na equação.

***

Nervoso e Os Calmantes abriu a noite. “Já desmanchei minha relação” é bacana, mas não acho sua música interessante, de uma maneira geral. Talvez porque Nervoso nunca entre de coração na onda do romantismo brega/ Jovem Guarda, base do seu som. A todo tempo, um espírito de chacota parece estar no ar. E isso me incomoda. É uma sensação que nunca tive com Los Hermanos ou Pato Fu (em suas incursões por esse universo) e não tenho hoje com Cidadão Instigado, por exemplo.

6.12.05

Só quem morre dentro de uma igreja

Estive na simpática Acari Records na última quarta-feira (leia aqui a matéria que fiz pro Globo Online). Lá, saboreei um grande vatapá feito pela baiana Glória e ouvi uma linda história sobre Pixinguinha.

Num canto do terraço havia uma estátua de Pixinguinha recostado sobre uma lua minguante, prosaicamente coberta com um plástico - "a poeira aqui é uma coisa séria", a anfitriã Luciana Rabello explicou. A imagem, contou Luciana, foi feita por Elifas Andreato para o bar Vou Vivendo, de São Paulo. Quando o bar fechou, em 97, uma turma que incluía o poeta Hermínio Bello de Carvalho saiu levando a estátua pela noite paulistana. Num dos botequins, Pixinguinha ficou sem que ninguém se desse conta. Anos depois, soube-se que a imagem tinha sido achada (sem a lua da base) por Esmeralda, uma ex-menina de rua, num lixão da cidade. Ela pegou a estátua e a levou. Não porque era fã do mestre, que nem reconheceu. Para ela, a estátua era a de um Preto Velho. E ela prestava seu culto ao negro de chapéu, com sax no colo.

Lembrei dos versos de Paulo César Pinheiro para a música de Moacyr Luz, "Som de prata": "Só quem morre dentro de uma igreja vira orixá. Louvado seja, Senhor, meu santo Pixinguinha".

***

Googlando, soube que a história já é bem conhecida por aí. Mas quis contar mesmo assim.

10.10.05

Da Barra pra Vila

Estive na Barra da Tijuca semana passada. Costumo ir lá não e confesso que tenho um problema com essa região da cidade. Me incomoda aquela coisa de tudo lá ser cópia, da Estátua da Liberdade à Pizzaria Guanabara, do Downtown (um centro de cidade fake) à Praça XV do Barrashopping.

Mas sei que não é tão simples assim, o problema é mais meu que da Barra. Afinal, a arquitetura do Centro, que amo, é em certa medida também réplica. Pereira Passos quis criar uma capital moderna no início do século 20 e tomou Paris como modelo. Seu sucessor ergueu o Teatro Municipal, uma réplica da Ópera de Paris.

O que falta à Barra talvez seja só História. Tempo. Tipo a boneca de gesso de Manuel Bandeira, feita em escala industrial, que depois de ganhar as marcas do tempo adquiriu uma certa humanidade ("Hoje esse gessozinho comercial/ É tocante e vive, e me fez agora refletir/ Que só é verdadeiramente vivo o que já sofreu").

Antes de Bandeira, porém, pensei em Grande Otelo cantando Noel, na opereta "A noiva do condutor". A música é "Tipo zero". Acho que o cara da Vila matou a chave da identidade da Barra: o bairro é meio tipo zero.

"Você é um tipo que não tem tipo
Com todo tipo você se parece
E sendo um tipo que assimila tanto tipo
Passou a ser um tipo que ninguém esquece"

3.10.05

Batuque de boca

Foi assim, quase onomatopeicamente, que Elza Soares - em entrevista nos bastidores do VMB - se referiu ao que costumam chamar de "beatbox". Lindo.

Tanto falando como cantando, Elza erra muito. Mas, em ambos os casos, quando acerta ela é incomparável.

23.9.05

Três dores recentes

"Pra que chorar se existe amor/ A questão é só de dar/ A questão é só de dor", Vinicius de Moraes, transantontem, no imperdível documentário 'Vinicius', de Miguel Faria Jr.. Mais um tratado filosófico do poeta, do qual não eu soube falar muito bem na matéria que fiz para o Globo Online. Queria dizer ali o quanto sua poesia e vida foram coerentes, e como defendem um modo de encarar a vida, uma filosofia prática e profunda, apesar de sua beleza óbvia e aparente simplicidade. Desisto de tentar. Vá ver o filme quando estrear no circuito, porque no Festival do Rio meio já era.

"Evitar a dor é impossível/ Evitar este amor é muito mais", Monsueto anteontem, na voz de Leila Maria, acompanhada apenas de um baixo. Já tinha ouvido ela cantar antes, mas foi com essa gravação que a ficha caiu. De ouvir no repeat, repeat, repeat...

"A minha dor não é a dor dela/ A minha dor é Doriana e a dor dela é Adorela", com DJ Dolores, ontem, eu e Paula dançando na sala sozinhos, bobos, depois do banquete de arrozfeijãonuggetsovocozido. E suco de laranja.

19.9.05

Da janela do 'Hotel'

Sei que não tem nada a ver, que música é música, qualquer maneira de tocar vale a pena, não é nada estranho as pessoas trafegarem de um lado pro outro sem se ligarem em fronteiras, diferenças. Sei disso tudo.

Mas que é curioso ver um cara que conheci como DJ posando de guitar-hero, ah isso é.

Gostei do show do Moby também por isso.

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