Me leva amooooooooooooor!!!!!
Tava ouvindo o "Maria Bethânia", de 1969, nesta quarta - os discos da Bethânia estão sendo relançados, num projeto do pesquisador Rodrigo Faour. Ia saboreando os arranjos corajosos e elegantes, a voz de Betha mais áspera que a de hoje, o passeio entre macumba nervosa e o bolerão enfumaçado - vou escrever mais deste disco qualquer dia - até que me deparei com "Andança".
Hoje essa canção é quase uma piada, sinônimo de chatice do corinho coletivo, zumbis da MPB de expressão abobalhada cantando num "barzinho" (esse "inho" transforma o local num gênero, "música de barzinho", essas coisas). O parceiro de Metroblog Nuno Virgílio descreveria bem a cena angustiante de estar num desses "barzinhos" e ouvir "Andança".
Mas a música tem sua graça. Sempre soube disso. Confesso, porém, que tinha esquecido.
Pois Bethânia me lembrou que a música tem sua graça. Mais que isso. Me mostrou graças que não tinha visto. Sua interpretação me tirou do automático, me fez ouvir uma nova e mesma canção. Ela falando "Meu namorado é rei" com aquele sorriso dela é como se criasse outro verso. Ou o "Me leva amooooor". Essa sílaba prolongada não tem nada da banalidade do corinho. Soa como um grito convicto de quem ordena e suplica, ora bolas, para que seu amor a leve. Tem também o dengo dos "me leva amor" que ela canta no final - essa parte me fez pensar no maravilhoso disco de Vinicius que ela gravou.
Mas o que mais chamou minha atenção foi o "Por onde for quero ser teu par". Tem mistério não. Nada de feitiçaria, só tecnologia. Ou melhor, matemática - no caso, a divisão das sílabas em tempos. Prolongando algumas, encurtando outras, uma ênfase aqui, outra ali, Bethânia fez umas sinuosidades no verso que todo mundo canta quadradão.
Nunca imaginei que fosse fazer isso, mas tô eu aqui indicando "Andança". Virou uma das minhas favoritas? Nem de longe. Mas a relação com música popular é feita dessas miudezas.
Hoje essa canção é quase uma piada, sinônimo de chatice do corinho coletivo, zumbis da MPB de expressão abobalhada cantando num "barzinho" (esse "inho" transforma o local num gênero, "música de barzinho", essas coisas). O parceiro de Metroblog Nuno Virgílio descreveria bem a cena angustiante de estar num desses "barzinhos" e ouvir "Andança".
Mas a música tem sua graça. Sempre soube disso. Confesso, porém, que tinha esquecido.
Pois Bethânia me lembrou que a música tem sua graça. Mais que isso. Me mostrou graças que não tinha visto. Sua interpretação me tirou do automático, me fez ouvir uma nova e mesma canção. Ela falando "Meu namorado é rei" com aquele sorriso dela é como se criasse outro verso. Ou o "Me leva amooooor". Essa sílaba prolongada não tem nada da banalidade do corinho. Soa como um grito convicto de quem ordena e suplica, ora bolas, para que seu amor a leve. Tem também o dengo dos "me leva amor" que ela canta no final - essa parte me fez pensar no maravilhoso disco de Vinicius que ela gravou.
Mas o que mais chamou minha atenção foi o "Por onde for quero ser teu par". Tem mistério não. Nada de feitiçaria, só tecnologia. Ou melhor, matemática - no caso, a divisão das sílabas em tempos. Prolongando algumas, encurtando outras, uma ênfase aqui, outra ali, Bethânia fez umas sinuosidades no verso que todo mundo canta quadradão.
Nunca imaginei que fosse fazer isso, mas tô eu aqui indicando "Andança". Virou uma das minhas favoritas? Nem de longe. Mas a relação com música popular é feita dessas miudezas.
